Por Ana Paula da Silva Vieira
Introdução
O teatro ritualístico se apresenta como uma forma de arte performática que transcende a mera representação, integrando a vida e a arte por meio de processos que evocam a essência dos rituais. Essa abordagem busca não apenas a transformação do ator, mas também do espectador, utilizando práticas que promovem estados alterados de consciência, ampliam a percepção do corpo e incorporam símbolos e elementos sagrados. Suas manifestações são diversas e podem ser observadas ao longo da história, desde os rituais antigos da Grécia e da Índia até as explorações contemporâneas que buscam um “outro teatro” e a conexão com a ancestralidade.
Um aspecto relevante que se entrelaça com o teatro ritualístico é a teoria do Teatro da Crueldade, proposta pelo ator, diretor e teórico francês Antonin Artaud, na década de 1920. Artaud criticou a cultura do espetáculo e a visão de mundo da sociedade ocidental, buscando uma nova forma de expressão que rompesse com as convenções estabelecidas e provocasse uma reflexão profunda sobre a condição humana. Essa perspectiva ressoa fortemente no contexto do teatro ritualístico, onde a busca pela transformação e pela experiência transcendente é central.“O teatro deve superar o aspecto lúdico, apenas. É necessário que se chegue aos conflitos originários do ser humano, que estão congelados. E, para se chegar até ai, deve-se “desmontar o organismo”.(Artaud 1938)
Quando nos debruçamos sobre o significado do teatro ritual vamos muito além do contexto cultural que ele abraça. O ponto de partida vem de um ponto de vista pessoal, de alguém que foi ao longo da vida sendo transformada em muitos aspectos pela representatividade impregnada nesta atividade.
É um reencontro e uma conexão pouco valorizada. Sou uma mulher de origem afrodescendente com limitações financeiras ao decorrer de sua trajetória e atravessada por muitas das premissas que se prospecta sobre determinado grupo social, inclusive preconceito religioso. O que nos distancia desse contato histórico com a ancestralidade tornando referência moldes sociais que não nos reconhecemos muitas vezes, tanto na imagética quanto nas experiências.
Meu primeiro contato com o teatro acontece aos 14 anos de idade ainda na escola, o que impactou a minha realidade naquele momento da vida. Ter espaço para me expressar, ter ferramentas para traduzir sentimentos, inseguranças e conhecer semelhantes nos textos, nas emoções foi como abrir a própria caixa de Pandora.
Desse contato em diante foi um mergulho cada vez mais profundo nos métodos, nos autores, nas funções exercidas com experiências amadoras e profissionais enriquecedoras. Muitos anos depois, cursando graduação em Dança Licenciatura na Universidade Federal do Rio de (UFRJ), me deparo com o grupo de extensão: Teatro das ideias Vivas, que tem como objetivo a reflexão filosófica atrás do Teatro Ritual. Foi meu primeiro contato com o método, inicialmente ainda no período online por causa da pandemia do COVID 19, o interesse era particular e conhecer a filosofia através da leitura das tragédia gregas, ter esse contato mais intimamente com as personas, a linguagem, as formas, contudo as reuniões, principalmente depois que passaram a ser presenciais, tomaram caminhos muito mais significativos ao se aprofundar sobre o conhecimento afrodiaspórico e suas conexões no âmbito teatral com a sabedoria dionisíaca.
A extensão acontece no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), coordenada por Fernando Santoro que nos conduziu através da filosofia por Orfeu, Zé Pilintra, Bacantes, Pombogira, Dionísio, Barapitanga, Édipo e experimentações rituais que nos trazem à tona as nossas próprias personas escondidas, guardadas, quase esquecidas, sendo resgatadas e reconhecidas.
O teatro neste contexto é mais do que vestir máscaras e interpretar personagens como vamos aprendendo ao longo da carreira como atriz: tomar para si uma determinada metodologia e empregar minuciosidades características de uma personalidade. No teatro ritual isso é um processo de extração — purgação, purificação : catarse.
Uma breve comparação é o “Teatro da Crueldade” nome dado à teoria proposta pelo ator, diretor, poeta e teórico francês Antonin Artaud (1896-1948), surgida na década de 20, onde a proposta era uma experiência cerimonial primitiva destinada a libertar o subconsciente humano e revelar o homem a si mesmo. “A vida é a imitação de algo essencial, com o qual a arte nos põe em contato.” (Valéry Paul, 1930)
Visceral eu apontaria, essa é a estrutura da experiência, um encontro de reabilitação com os próprios paradigmas, reascender em essência, ouvir no silêncio e sentir. O ritual traz para o presente, arrepia, transmuta, altera os sentidos e organiza as emoções.
Aguçamos os sentidos para reinterpretar Édipo fugindo de seu destino e indo de encontro a ele. E nos passa pelo que a filosofia se propõe a refletirmos sobre o tempo “pensar é o sentido do ser é escutar a realidade nos vórtices das realizações, deixando-se para si mesmo o que é digno de ser pensado como outro. (Heidegger 1927 pag.15)
Metodologia
Ao ingressar nesse projeto de extensão Teatro das ideias vivas no de final de 2021 os estudos estavam voltados a pensarmos sobre estéticas, oráculos, feminismo, justiça, ditadores, líderes, arte e sobre como hipérboles transbordam catarses nos despindo e revestindo em memórias vivas. É atrás da produção de conhecimento que se desenvolve a pesquisa literária das tragédias, a experimentação teatral e leitura, o canto e a dança como maneira de compreender as semelhanças nas diversas esferas do saber que envolvem os ritos como um fenômeno sociocultural.
Resultados
São provocações que estimulam não apenas os integrantes do projeto, mas o público em geral, geram curiosidade e muitas vezes causam um choque com a exposição mais primitiva das reações humanas. De muitas formas, o público é impactado pela estranheza, pela admiração, pela reflexão.
O objetivo neste aspecto é atingido ao tocar o público para ser crítico e criativo também. Quem foi Dionísio? Que máscaras ele representa em outras culturas? Como se manifesta na atualidade?
No texto Penteu, escrito pelo próprio Fernando Santoro, me chamou atenção Dioníso. Dois colegas do projeto dividiam a sua atuação e eu me mantinha atenta às suas nuances e intenções. Na primeira apresentação pública a atuação de um dos colegas foi inspiradora para a visão de uma atriz no conjunto. Ali estavam duas personalidades desse ser emblemático da mitologia, contudo uma dessas máscaras mantinha características que se distanciavam daquela figura grega era a própria representação da cultura afro.
Quando o texto cita as uvas a imagem que se sobrepõe são as raizes se alastrando, quando ele comemora a queda do ditador é a justiça de Exu. o Orum não está só representado, ele está ali diante da plateia aberto sob a liderança de Dioníso que morre, ressuscita e faz justiça em alguns minutos. Ele nos convida a participar dos rituais de suas transmutações e assistimos a inocência sendo cerceada, nos revoltamos e nos entristecemos, retornamos em festa com o estrangeiro, seduzimos e somos seduzidos pela dança, pelo canto, por seu magnetismo e somos convocados como guerreiros à justiça.
Sentimos a libertação individual partindo desse conjunto, onde as máscaras, os enganos traduzem ensinamentos milenares. O simbolismo representado por Dioníso trás consigo muitas verdades implícitas na sociedade, não é incomum que gere sincretismo, exposto com naturalidade com danças e características que representem os orixás, cânticos que destaquem outras formas de ritos alinhando-se à essência e força de Dionísio.
Essa experiência é ao mesmo tempo profundamente intelectual e física para quem compartilha os momentos de aprendizagem, os rituais, a performance artística, mas também para quem assiste o cortar da cabeça do leão ganancioso junto com todas as bacantes.
Participar do projeto abre espaço ou pelo menos parênteses tanto na teoria quanto na prática para o desenvolvimento de uma visão mais ampla da experiência humana, mais diversa e crítica. Agregar o conhecimento da filosofia enriqueceu o meu trabalho de conclusão do curso em dança, intitulado “Arqueologia da dança: caminhos ancestrais“, onde incluí muitas informações adquiridas, vindas das provocações que me estimularam a pesquisar sobre o lugar dança na ancestralidade. A experiência da turnê na Itália em outubro de 2024 (Teatro de Mistério), me levou à observação de parques arqueológicos, a observar ao vivo uma escavação, as obras de arte que traziam as danças antigas para o presente, as posturas, o magnetismo.
Foi revolucionário o entendimento no campo da pesquisa ao qual eu queria estar inserida. O teatro ritual extrai muito mais que a minha vocação artística ou o meu trabalho como atriz, evocou a ancestralidade despertando um desejo da conexão aos pares, de continuidade da vida e das tradições.
Referências:
Artaud ,Antonin, O teatro e seu duplo, 1938 Fonte: https://citacoes.in/autores/antonin-artaud/
Heidegger, Martin, Ser e Tempo, 1927
Valéry, Paul, A Arte e a Vida, 1930








